quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

História Oculta. Parte I - A civilização do Vale do Indo

Civilizações são basicamente construções intelectuais que nos permitem comparar ordens sociais distintas. Organização social (em cidades por exemplo), especialização e excedente de produção, estratificação social, governo centralizado, valores em comum (sociais ou religiosos); são características que definem uma civilização. 

Nos primórdios dos tempos as civilizações eram principalmente encontradas associadas aos rios, por exemplo: Tigre e Eufrates (Mesopotamia), o rio amarelo ou Huang Ho (China), Nilo (Egito); e a nossa estrela, a Civilização do Vale do Indo (CVI).


Esta civilização que existiu por volta dos anos 3500 - 3300 até 1300 AC, numa região onde hoje estão o Afeganistão, Paquistão e India, e por onde passa o rio Indo. Ela é considerada junto com Mesopotamia e Egito um dos berços do mundo antigo. 

Tudo que se sabe sobre a CVI é graças a arqueologia, pois apesar de terem desenvolvido a escrita, até hoje ninguém conseguiu decifrar como se lê. Sabemos que a CVI se desenvolveu em cidades incríveis, as maiores e mais conhecidas foram Harapa e Mohenjo-Daro. Estas cidades eram densamente povoadas e seu povo vivia em casas de múltiplos andares, construídas usando tijolos uniformes em ruas perpendiculares, quase uma primeira versão de cidades modernas, com organização e planejamento urbano. Mais ainda, os edifícios eram posicionados de forma a aproveitar o vento criando uma espécie de ar-condicionado natural no seu interior. Existia também um sistema de drenagem centralizado, que ligava a maior partes das construções destas cidades, este sistema usava a gravidade para levar dejetos e água para fora da cidade, como um sistema de esgoto! 

Ruínas de Mohenjo-Daro

Sabe-se que a Civilização do Vale do Indo praticava o comércio. Eles desenvolveram selos que serviam como uma marca para identificação de produtos e estampavam placas de argila. Estas placas provavelmente foram usadas como material de intermédio e valoração para as trocas, resumindo, usadas como moeda. Estes selos provenientes do Vale do Indo foram encontrados na Mesopotamia, indicando que as duas civilizações comercializavam entre si.


Mas talvez a característica mais impressionante do povo que viveu ao longo do vale do Indo, é que eles eram pessoas pacíficas. Nos mais de 1500 sítios arqueológicos da região, quase nenhum indício de guerra, armas ou vida militar foi encontrado.

O que aconteceu com o povo que viveu esta fascinante civilização? Sabe-se que eles não são os ancestrais dos atuais habitantes da região (estes provavelmente vieram do cáucaso). Em algum momento ao redor de 1750 AC, esta civilização começou seu declínio até sua extinção. Os historiadores tem três teorias para o ocaso da CVI: 
1 - Subjugação, no mundo antigo talvez não fosse tão legal ser um povo pacífico e sem armas, e os caucasianos os teriam dizimado; 
2 - Desastre Ambiental, eles teriam provocado seu próprio fim, destruindo o meio ambiente em que viviam; 
3 - Terremoto, um terremoto gigantesco teria alterado o curso do rio de tal forma que, alguns de seus afluentes secaram e, sem água para sua subsistência, as pessoas teriam abandonado a região.

Não se sabe como esta grande civilização acabou, tampouco as razões para que ela tenha se formado, mas o motivo pelo qual é importante olhar para histórias como a da CVI é entender quão fundamental foi e continua sendo a vida em sociedade, a colaboração entre indivíduos, seja trocando algodão por bronze ou construindo cidades e colaborando para garantir que a sociedade prospere e a vida das pessoas seja melhor do que antes. Estudar a história das civilizações passadas é produzir material para a prosperidade das civilizações futuras.

quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

Marx morreu?

As ideias de Marx, são para muita gente como uma religião, enquanto para outras são o anticristo. Eu confesso que achei por algum tempo que o assunto estava encerrado, mas com essa onda de radicalização à direita, eis que o pensador prussiano volta à moda, ressuscitado justamente por quem tem verdadeiro asco às suas ideias!!! (Ah, as ironias da vida.) Mas é obvio que este boquirroto de plantão, não deixaria passar mais essa oportunidade de espalhar sua falastronice aguda pela internet.

Os simpatizantes do pensamento Marxista ainda esperam pelo tal colapso do capitalismo e pela  revolução do proletariado com a mesma devoção que alguns cristãos esperam pelo apocalipse ou pela vinda do messias salvador. Não posso afirmar sobre o fim dos tempos, mas a bancarrota do mundo capitalista pelo visto não vai acontecer e o nirvana comunista parece como sempre foi, surreal e inatingível. 

O trabalho filosófico de Marx durante a revolução industrial (ele estava na Inglaterra logo, no olho do furacão) que culminou em obras como O Manifesto Comunista e O Capital (em parceria com Friedrich Engels) consistia em analisar as transformações, e elas não foram poucas, promovidas pela nova forma de produção. O mundo até então basicamente feudal e de produção artesanal, passa a ser urbano e industrial. E aí vem meu primeiro porém, para Marx o proletariado, privado da sua condição de dono dos meios de produção, se levantaria contra o sistema. O problema é que somente os senhores feudais e a burguesia eram donos dos meios de produção, o servo feudal, que agora compunha a maior parte da classe batizada como proletariado, jamais foi dono de absolutamente nada, em alguns casos nem mesmo da sua prole!!!!!! Para estas pessoas ter ou não os meios de produção da nova configuração socioeconômica pouco importava.Assim, as ideias de Marx que demonizavam a classe dominante, me parecem muito mais com o lamento de parte da burguesia que deixou o cavalo selado passar à sua frente e não montou.


A ideia de sociedade sem classes e sem propriedade privada, onde todos são donos dos meios de produção defendida por Marx, além de natimorta pela simples ideia de que a revolução do proletariado jamais ocorreu ou ocorrerá., também esbarra na condição humana, muito mais associável à realidade capitalista, reconhecida pelo próprio Marx e alguns dos seus seguidores mais importantes. Vejamos os exemplos a seguir:

1 - O Materialismo Histórico: Apesar de Marx e Engels não usarem essa expressão, a ideia surgiu a partir do trabalho deles; e trata da forma como todo tipo de sociedade desde as mais primitivas se organizou a partir da produção e troca de produtos diversos e da divisão desta sociedade em classes. Ou seja uma forma primitiva de capitalismo!!!!! Esta forma de organização existe, segundo o próprio Marx, desde que o homem das cavernas passou a viver em grupos.

2 - O capitalismo como sistema econômico mais produtivo: Apesar de ser seu mais ferrenho critico, em O Capital, Marx atesta que o sistema de produção capitalista combinaria vários processos produtivos em um papel social, incluindo o desenvolvimento de novas tecnologias, e que todas as nações, visando desenvolver seu potencial produtivo, deveriam se tornar capitalistas antes da revolução proletária natural!!!!! 

3 - Mudanças econômicas e seu impacto social: Por fim a última contribuição de Marx ao capitalismo está em um trecho de dez parágrafos do Manifesto Comunista, onde ele descreve como o crescimento econômico provoca mudanças nas classes sociais, costumeiramente gerando disputa por poder. Resumindo, não existe maior catalisador para mudanças sociais do que a dinâmica da economia!!!!

Falar é fácil da Silva, por isso eu digo: As ideias de Marx são invalidas e imprestáveis? Obviamente que não, Marx foi o primeiro a notar que a relação entre os "donos do sistema" e o restante da sociedade produtiva precisa ser regulada, e graças a esta ideia, vejam vocês, o que começou com a revolução industrial evoluiu para o que é hoje o capitalismo moderno e a economia de mercado atual. Poucos pensadores contribuíram tanto para o triunfo do capitalismo como Marx (vejam vocês 2). A alternativa socioeconômica elaborada por ele, essa sim morreu antes mesmo de nascer. Karl Kautsky, teórico marxista, editor do quarto volume de O Capital, definiu o Comunismo como uma utopia inatingível e inconciliável à condição humana. Enquanto o "materialismo histórico"continuou se desenvolvendo, e hoje no inicio século XXI, vivemos a era do conhecimento, onde o meio de produção mais valioso é o próprio individuo, me parece meio ingenuo discutir a revolução do proletariado. Descanse em paz Marx.